INFORMAÇÃO QUE PROTEGE

Dicas de Segurança para Acompanhantes

Proteção pessoal, direitos, saúde digital e canais de ajuda em todo o Brasil.

Conteúdo confiável e atualizado
Baseado em relatos reais da comunidade

· · Tempo de leitura: ~18 min

Dados baseados em entrevistas realizadas entre janeiro e fevereiro de 2026 com 23 profissionais de 9 capitais brasileiras. Entrevistas por mensagem e chamada de voz, com consentimento verbal. Nenhum nome real foi utilizado.

ATUALIZAÇÃO — ABRIL 2026: Adicionamos Goiânia e Florianópolis ao guia de cidades após recebermos pedidos de profissionais dessas capitais. Também atualizamos o link da Delegacia Virtual do Paraná, que mudou de endereço no início de 2026.

Proteção Pessoal para Acompanhantes

O ritual antes de sair

As profissionais mais experientes que ouvimos — gente com 8, 10, 15 anos de estrada em São Paulo, no Rio, em BH — todas dizem a mesma coisa, com palavras diferentes: "a segurança acontece antes de você sair de casa". Tudo o que vem depois é remediação.

A primeira coisa é checar quem é o cliente. Peça nome e telefone. Se ele mandar foto, faz uma busca rápida no Instagram, no Facebook, no Google mesmo. Uma acompanhante de São Paulo que colaborou com este guia contou que já descobriu, só pelo número de telefone, que um cliente tinha boletim de ocorrência por agressão.

Levei dois minutos pra pesquisar. Dois minutos que me pouparam de sei lá o quê.

— Acompanhante de São Paulo

Segundo: alguém precisa saber onde você está. Sempre. Pode ser amiga, colega, irmã, qualquer pessoa de confiança. Manda nome do cliente, telefone, endereço, placa do carro se tiver. Muitas profissionais anunciadas no Erosguia em São Paulo criaram grupos de WhatsApp exatamente pra isso — avisar quando entram e quando saem de cada atendimento.

Agora, em nome da honestidade: nem todo mundo concorda que o grupo funciona. Uma acompanhante de Salvador, com 9 anos de experiência, foi bem direta com a gente:

Grupo de WhatsApp é bonito na teoria. Na prática, ninguém fica olhando celular a noite toda esperando mensagem. Já mandei alerta e levaram 40 minutos pra alguém ver.

— Acompanhante de Salvador, 9 anos de experiência

Ela tem um ponto — e talvez na cidade dela a realidade seja essa mesmo. Mas das 23 que ouvimos, 17 disseram que o grupo já ajudou em alguma situação concreta. Então a recomendação continua: é melhor ter e falhar às vezes do que não ter nada. Só não trate como infalível, né?

Aí tem a palavra-chave. Funciona assim: você combina com alguém uma palavra qualquer — "maracujá", "cortina", tanto faz. Se durante o atendimento você mandar essa palavra por mensagem ou falar no telefone, a pessoa do outro lado sabe que tem que chamar ajuda.

Parece coisa de filme? Não é. Uma acompanhante de Curitiba contou que mandou a palavra-chave pelo WhatsApp fingindo que estava respondendo uma amiga. O cliente nem percebeu. Em 20 minutos tinha polícia na porta.

E se for a primeira vez com aquele cliente? Marca num lugar público antes. Café, recepção de hotel, shopping. Dez minutos bastam pra sentir a pessoa. Confia na tua intuição — ela quase nunca erra.

Durante o atendimento

Celular carregado. GPS ligado. Localização compartilhada. Isso é o mínimo. Mas tem uma coisa que a gente ouviu de praticamente todas as entrevistadas e que vale reforçar: não aceite nada que o cliente ofereça pra beber. Nada. Leva sua própria água.

Parece frescura até você ouvir a história de alguém que tomou um suco e acordou sem nada.

— Profissional do Rio de Janeiro

Outra unanimidade: receba antes. Dinheiro na mão ou Pix confirmado. E defina tudo antes de começar — serviços, tempo, valor. A falta de clareza nessa hora é a raiz da maioria dos conflitos.

Se em algum momento a situação mudar — o cara fica agressivo, faz algo que não estava combinado, aparece alguém — saia. Sem pensar duas vezes. Conheça as saídas do local. Nunca fique sem saber como sair de onde você está.

Depois do atendimento

Terminou? Manda uma mensagem pro grupo ou pro contato: "saí, tudo bem". Dois segundos. E anota os clientes problemáticos — nome, telefone, o que aconteceu — pra compartilhar com colegas. Essas listas colaborativas, que existem em SP, no Rio, em Salvador, em Recife, já evitaram muita coisa séria.

Se houve agressão: atendimento médico imediato. E, se conseguir, não toma banho nem troca de roupa antes de ir ao hospital. É difícil, eu sei. Mas preserva provas que podem fazer diferença num processo criminal.

Checklist de Emergência

Antes de Sair

  • Celular 100%, com crédito ou internet
  • GPS ligado + localização compartilhada
  • Dados do cliente enviados pra alguém
  • Palavra-chave combinada
  • Grana pra voltar (Uber, táxi, ônibus)
  • Cópia do RG — nunca o original
  • Seus próprios preservativos e lubrificante

Perigo Imediato

  • Respira. Ganha tempo. Não confronta
  • Manda a palavra-chave
  • 190 (Polícia) se tiver risco de vida
  • 192 (SAMU) se estiver machucada
  • Lugar público mais perto. Pede ajuda

Depois de Agressão

  • UPA ou hospital — não espera
  • PEP em até 72h
  • B.O. na Delegacia da Mulher
  • ONG de apoio (listamos no bloco 7)
  • Ligue 180 — gratuito, 24h, sigiloso

Saúde e Prevenção: O que o SUS Oferece de Graça

Vou ser honesta: quando perguntamos às acompanhantes que colaboraram com este guia se elas usavam o SUS, a maioria disse que sim pra emergência, mas quase nenhuma fazia acompanhamento preventivo regular. Os motivos variaram — medo de julgamento, falta de tempo, "nunca fui atrás" — mas o resultado é o mesmo: muita profissional que poderia estar se cuidando de graça está pagando caro em clínica particular ou simplesmente não se cuidando.

Nas UBS e nos CTAs de qualquer capital do Brasil — São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador, todas — você faz testes rápidos de HIV, sífilis e hepatites de graça. Resultado em meia hora. Sigilo total. E sim, já ouvimos relatos de gente que foi mal atendida em posto de saúde por causa da profissão. Acontece, e é revoltante quando acontece. Mas também acontece — e muito mais vezes, tipo, na maioria das vezes — de você ser atendida com total normalidade. Não deixa de ir por medo. Vai. O pior que geralmente acontece é esperar na fila, que, bom, é o SUS né — fila todo mundo enfrenta.

A informação mais importante deste bloco: a PrEP. Um comprimido diário que reduz o risco de HIV em mais de 99%. O SUS distribui de graça pra profissionais do sexo. Qualquer acompanhante pode ir numa UBS ou CTA e pedir. E a PEP — tratamento de emergência pós-exposição — está disponível em UPAs e hospitais, em até 72 horas.

Saúde mental: das profissionais que ouvimos, mais da metade relatou ansiedade frequente. Quatro mencionaram depressão séria. Os CAPS oferecem atendimento psicológico gratuito. Universidades públicas têm clínicas-escola. ONGs como a Davida e a Aprosmig oferecem apoio específico. Não é frescura. É necessidade.

Segurança Digital: Proteja sua Identidade

Este bloco vai ser mais curto porque a mensagem é simples: sua vida pessoal e sua vida profissional não podem se misturar no digital. Nome artístico em tudo. E-mail separado. Redes sociais sem vínculo com as pessoais. Chip pré-pago exclusivo pra clientes.

Sobre fotos: toda imagem carrega metadados com localização GPS. Apague esses dados antes de publicar. E repare no fundo: placa de rua, fachada, espelho — tudo pode identificar onde você está.

Cliente com perfil fake? Desconfia. Ofertas absurdamente generosas? Fala sério, isso não é generosidade, é armadilha. Quem tá na estrada há tempo já sacou esse padrão faz tempo.

Ameaça online: print de tudo, não responde, denuncia na plataforma, registra B.O. Em São Paulo pela Delegacia Eletrônica, no Rio pela Delegacia Online. Tudo sem sair de casa.

Seus Direitos: Mais do que Você Imagina

Exercer o trabalho sexual de forma individual e voluntária não é crime no Brasil. Nunca foi. O Código Penal não pune quem vende serviços sexuais. O que é crime é a exploração de terceiros (artigos 228, 229 e 230).

A atividade está na Classificação Brasileira de Ocupações (código 5198-05). Você pode contribuir ao INSS e ter aposentadoria, auxílio-doença, salário-maternidade e pensão por morte. O processo é meio burocrático, não vou mentir (e se você for numa agência do INSS às 3 da tarde de uma terça-feira, provavelmente vai esperar bastante — vai num horário cedo, confia). Mas é possível e legal.

Violência policial: das 23 profissionais que ouvimos, 9 relataram desrespeito ao tentar registrar ocorrência. Se acontecer com você, denuncie na Ouvidoria de Polícia, procure a Defensoria Pública, ou contate organizações como a Davida ou a Aprosmig.

Eu passei 10 anos achando que não podia reclamar de nada. No dia que descobri que eu tinha os mesmos direitos que qualquer pessoa, mudou tudo. Não mudou o mundo, mas mudou a minha cabeça.

— Profissional de 14 anos de experiência, interior de Minas

Guia por Cidade

São Paulo

SP é a cidade com mais acompanhantes em atividade no país — e também a com mais estrutura de apoio. Delegacias da Mulher, CREAS em cada subprefeitura, rede de UBS com PrEP e PEP. USP, Unifesp e PUC-SP têm clínica-escola. Delegacia Eletrônica aceita B.O. online.

Rio de Janeiro

O Rio tem a Davida, a Rede Brasileira de Prostitutas e o jornal Beijo da Rua. É o berço do movimento organizado. Delegacias da Mulher nas zonas Norte, Sul e Oeste. CTAs com testes e PrEP.

Belo Horizonte

Aprosmig — o nome que precisa guardar. Acessível, acolhedora, com orientação jurídica e de saúde. Rede municipal com PrEP. UFMG com clínica-escola.

Brasília

CREAS nas regiões administrativas, Defensoria Pública com equipe de gênero, UnB com clínica-escola. Rede do DF com PrEP e testes.

Curitiba

Rede de saúde bem organizada, Delegacia da Mulher, CAPS e CREAS. UFPR com psicologia gratuita. Delegacia Virtual do PR pra B.O. online.

Salvador

APROSBA é a referência local. Rede SUS com PrEP, Delegacia da Mulher, UFBA com projetos pra populações vulneráveis.

Recife

SUS com PrEP, Defensoria Pública, Delegacia da Mulher. UFPE com clínica-escola. Pastoral da Mulher Marginalizada na região metropolitana.

Fortaleza

Programa municipal de prevenção ativo, PrEP disponível, Delegacia da Mulher e CREAS. UFC com psicologia.

Porto Alegre

NEP — pesquisa acadêmica + atendimento direto. Delegacias da Mulher, PrEP, CAPS. UFRGS com extensão. Referência no Sul.

Manaus

GEMPAC, baseado em Belém, atua na região amazônica. SUS com testes e PEP. Defensoria Pública do Amazonas. UFAM com psicologia.

Goiânia

Rede de saúde com PrEP, Delegacia da Mulher, CREAS. UFG com clínica-escola.

Florianópolis

Cidade menor — rede de saúde funciona, tem PrEP e Delegacia da Mulher. UFSC com psicologia gratuita. O desafio é o anonimato.

Organizações que Estão do Seu Lado

  • Davida — Prostituição, Direitos Civis, Saúde

    Rio de Janeiro

    A mais conhecida. Criou o Beijo da Rua, briga por direitos há décadas.

    davida.org.br
  • Rede Brasileira de Prostitutas

    Nacional

    Conecta profissionais de todos os estados. De SP a Manaus, do RS ao PA.

  • GEMPAC

    Belém, PA

    Atua em toda a Amazônia.

    gempac.wordpress.com
  • CUTS — Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais

    Regulamentação, direitos trabalhistas, aposentadoria.

  • Aprosmig

    Belo Horizonte

    Orientação jurídica, saúde, apoio emocional. Acessível e acolhedora.

  • NEP — Núcleo de Estudos da Prostituição

    Porto Alegre

    Pesquisa + atendimento direto. Referência no Sul.

  • ANTRA

    Para acompanhantes trans e travestis. Monitora violência transfóbica.

    antrabrasil.org
  • Pastoral da Mulher Marginalizada

    Presente em SP, Recife, Fortaleza. Escuta e acolhimento, sem evangelizar.

Telefones e Canais de Ajuda

Canal Contato Pra que serve
Ligue 180 180 Violência contra a mulher. Gratuito, 24h.
Disque 100 100 Direitos humanos. Gratuito, 24h.
Polícia Militar 190 Risco de vida. Nacional.
SAMU 192 Emergência médica. Ambulância.
Delegacia da Mulher Presencial Violência de gênero. Todas as capitais.
Defensoria Pública Presencial Advogado de graça. Todos os estados.
CREAS Presencial Psicólogo, assistente social, orientação jurídica.
Delegacia Virtual Online B.O. sem sair de casa. SP, RJ, MG, PR, RS.

Uma Palavra para os Clientes

Se você chegou até aqui como cliente, parabéns — a maioria não chega. E o fato de estar lendo já diz alguma coisa sobre você.

As acompanhantes conversam entre si. Em todas as cidades existem redes onde elas trocam informações sobre clientes. Clientes problemáticos são identificados e bloqueados. Clientes respeitosos são recomendados. Funciona tipo um Yelp invisível, se é que dá pra comparar.

tem lista de "clientes ouro" que ela compartilha com colegas, e que esses caras conseguem horários melhores

— Profissional de SP

Ou seja: ser gente boa compensa, literalmente.

Se em algum momento durante o atendimento você perceber que ela está desconfortável, pergunta. "Tá tudo bem?" Três palavras. Custa zero e faz uma diferença enorme. Quando um cliente demonstra empatia — não como performance, mas de verdade — a tensão diminui. E a experiência melhora pra todo mundo.

Guia para Clientes